quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Cicatriz do Preconceito

Odair era um senhor de 67 anos, e estava jogando cartas com seu neto. Até que sem querer um botão de sua camisa se solta, e deixa a mostra uma cicatriz. Então, seu neto o pergunta o que originou aquele corte. O avô responde:
- É uma longa história. Eu trabalhava na roça, não gostava do serviço, e era época de seca. Então decidi me mudar para a cidade. O município urbano mais próximo ficava a 600 quilômetros de onde eu morava. Peguei minha bicicleta, uma trouxa de roupas e comida, e segui viagem. Percorri um quinto do caminho pedalando, até que avistei um caminhão, fiz sinal e ele parou. Pedi carona, o caminhoneiro aceitou, então, coloquei a bicicleta na caçamba e continuei a viagem. O caminhoneiro estava indo para uma cidade próxima a meu destino. No meio do caminho, paramos em uma tenda que vendia frutas e derivados. Ali compramos banana e pão. Voltamos à estrada. Meia hora depois, havia dois carros da polícia no acostamento, que mandaram-nos parar. Os policiais vistoriaram o caminhão, tudo certo. Mas num fundo falso da caçamba, havia drogas. O caminhoneiro foi preso e eu tive que ir à delegacia. Depois de duas horas, me liberaram.
O neto pergunta:
- O que aconteceu com o caminhoneiro?
O avô responde:
- Ele foi preso em flagrante. Bom, prosseguindo com a história; peguei minha bicicleta que estava no caminhão e percorri o resto do caminho. Quando cheguei na cidade, me espantei com tantos carros na rua, o barulho de tudo ao mesmo tempo. As pessoas me olhavam estranho, com certo desprezo, pareciam querer que eu ficasse longe delas. Achei um jornal no chão, era do dia anterior, comecei a procurar um emprego. Fui a vários estabelecimentos e não fui aceito, até que o dono de uma mercearia me contratou como caixa. O comerciante, assim como eu, tinha um sotaque “caipira”, talvez por isso não me olhasse como as outras pessoas. Eu não precisava falar muito, apenas bom dia, tarde, noite; então, não se percebia minha maneira de falar. Mas quando eu necessitava me comunicar, algumas vezes era ignorado e até zombado. Certa noite, depois de muito estresse no trabalho, fui a um bar tomar uma cerveja, perguntei a um rapaz onde ficava o banheiro, então ele e os amigos começaram a rir do jeito que eu falava. Eu já estava de saco cheio disso, insultei ele. O mesmo se irritou e partiu para cima de mim dando socos, eu retribuí com um pontapé. Clientes tentaram separar a briga, mas o rapaz conseguiu me acertar uma facada no lado direito do peito, por sorte o corte não foi profundo.
O neto interrompe:
- Então, esta cicatriz que o senhor tem, é por causa da facada?
O avô responde:
- Sim... Voltando à história; fui levado ao posto de saúde, e depois de uma hora de espera, tomaram as providências quanto ao corte, e colocaram esparadrapo. Dois anos depois, voltei para minha terra, e lá comecei a criar galinhas em sociedade com meu irmão, para vendê-las a um frigorífico.
Duas semanas depois, Odair e sua família, incluindo seu neto, foram à fazenda do velho. Lá, havia as ruínas do galinheiro onde os animais eram criados. O neto de Odair, que ouviu a história da cicatriz do avô, foi até estas ruínas. Então, avistou uma repartição que estava praticamente intacta, era feita de alvenaria, foi até ela. Ao chegar, o menino viu uma porta, e sorrateiramente a abriu. Estava escuro, então o garoto ligou seu celular para clarear o ambiente. De repente ele vê um esqueleto humano, de pronto dá um grito de susto. Havia uma mensagem pintada na parede, e nela estava escrito: “Vá rir de mim, no inferno!”.


Patrick Malgarize

Nenhum comentário:

Postar um comentário